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Como fazer um orçamento

Dicas para fazeres os teus primeiros preços enquanto freelancer criativo.

Dicas para freelancers de áreas criativas fazerem os seus primeiros orçamentos.

Fazer um orçamento pode ser uma tarefa difícil se começares do zero. Se perguntares a alguém que esteja a criar o seu próprio produto, fazer preços é sempre uma das partes mais complicadas, mas ainda mais no teu serviço, em que os produtos são as tuas capacidades. Como pôr um preço?

Estas são algumas dicas para te ajudar a começar no mundos dos orçamentos. É uma versão extensa e mais organizada da Dica do Freelancer #1 que publiquei no instagram no final de julho. Segue-me para estares sempre a par das últimas dicas!

Como fazer um orçamento

Há várias maneiras de fazer um orçamento, mas este artigo é direcionado para aqueles criativos que estão a começar o seu trabalho como freelancers.

Fica a par das tuas finanças pessoais

O teu trabalho deve dar lucro, mas, mais importante, é que cubra todas as tuas despesas essenciais. Para seres boa a fazer orçamentos, é imperativo que estejas a par das tuas finanças pessoais.

Durante um mês, regista as tuas despesas correntes: casa, contas (água, luz, gás), internet, subscrições (Netflix, HBO, iCloud, apps), alimentação, saúde, lazer, carro, animais de estimação, seguros, e tudo o que fizer parte da tua vida financeira.

Saber quais são as tuas obrigações mensais vai permitir-te estar mais confortável a fazer orçamento.

Assim, podes definir um valor mínimo que precises para pagar todas as tuas despesas. Além disso, como referência, também podes registar o valor que pretendas para o teu salário mensal.

Encontra um valor/hora

Esta é a maneira mais simples de começares e de habituares aos valores e às suas variações. Em primeiro lugar, encontra um valor hora. Como?

A partir do diagnóstico das tuas finanças pessoais! Descobre quando é o valor mínimo que deves cobrar/hora para cobrir todas as tuas despesas, e depois junta-lhe uma margem de lucro de 50% a 100% (para que consigas crescer).

Algumas coisas a ter em conta:

  • Podes ajustá-lo. Se no final o total for demasiado baixo (ou demasiado alto), podes ajustá-lo e começar novamente;
  • Pode (e deve) ser invisível para o teu cliente. Usa o valor/hora para calculares os teus orçamentos, mas evita cobrar, assumidamente, à hora, visto que isso te trás desvantagens. Com o tempo vais conseguir passar para outro modelo de orçamento e compreender isso melhor;
  • Podes definir valores diferentes para trabalhos diferentes. Por exemplo, o teu valor/hora pode ser mais alto para uma ilustração original do que para uma imagem para as redes sociais.
Encontra os teus valores de referência

Dedica algum tempo a construires a tua tabela de referências de preços no Excel. Multiplica o valor/hora pelo número de horas que prevês demorar a fazer cada tipo de trabalho (logótipo, cartaz, website, o que for).

Usa essa tabela quanto te pedirem orçamentos, para não teres de começar sempre do zero.

Essa tabela também pode funcionar como limite mínimo aceitável, para evitares fazer preços demasiado baixos, mesmo quando há pressão para isso.

Na tabela podes juntar elementos que adaptem o preço consoante determinadas circunstâncias comuns ao teu tipo de trabalho. Por exemplo, se vais ter de acompanhar a impressão em gráfico, se tens de fazer viagens ou gastos em material, se há cedência de direitos de ilustrações ou se o teu trabalho vai ser usado em mais do que um suporte, entre outras coisas. No fundo, para todos os trabalhos há “pedidos extra” comuns; encontra um cantinho da tua tabela para os incluir.

Prevê os impostos que vais ter de pagar

Todos os trabalhadores independentes (aka freelancers) em Portugal têm obrigações para com o Estado. Ao fazeres um orçamento, é importantes estares consciente dos impostos que vais ter de pagar, para não haver surpresas desagradáveis.

O mais aconselhado será marcares uma consulta com uma contabilista para tirares todas as tuas dúvidas, e repetires a consulta anualmente (ou sempre que tiveres algumas dúvidas novas).

Em Portugal, um trabalhador independente paga:

  • Segurança Social (mensal);
  • IVA – Imposto Sobre o Valor Acrescentado (mensal ou trimestral);
  • IRS – Imposto Sobre o Rendimento Singular (por retenção na fonte ou anual);

Também pode pagar o Pagamento por Conta, dependendo dos valores calculados em IRS, mas os três impostos acima são os principais.

Algumas dicas para lidares com os teus impostos:

  • Marca os prazos no calendário ou agenda, tal como se fossem prazos de projetos, para não te esqueceres;
  • Ao fazer orçamentos, considera os valores bruto (com impostos e custos) e líquido (sem impostos e custos) do teu trabalho, para saberes exactamente quanto vais ganhar no fim.
Sê flexível e crítico
vê além do preço em dinheiro

Em alguns casos, considera seres pago em serviços, ofertas ou outras trocas quantificáveis e benéficas para ti. Também podes misturar vários tipos de retorno. É importante que sejam trocas quantificáveis para que fique claro quanto é que deves receber do quê — por exemplo, se estiveres a fazer um trabalho para uma lavandaria e o pagamento for dinheiro + serviços, deve ficar definido (por escrito, num contrato ou num email) quantas lavagens, secagens ou outros serviços é que a empresa te fica a dever.

menos tempo = tempo mais valioso

Há certas circunstâncias que podem aumentar os teus orçamentos. Uma delas é a quantidade de trabalho que tens. Se estiveres cada vez mais ocupado, pode ser uma boa ideia aumentares os teus preços.

Informa-te sobre os teus clientes

As empresas não são todas iguais. Como freelancer trilhas o teu caminho também a partir das empresas com quem trabalhas; é a elas que associas a tua imagem e o teu trabalho. No entanto, há empresas com cujas práticas podes não te identificar — ou porque exploram os seus trabalhadores, ou porque estiveram envolvidas num escândalo mediático. Em algumas situações, a escolha certa poderá ser rejeitares esse trabalho, sobretudo se sentires que o teu trabalho vai ser usado para limpar a imagem de uma empresa com quem não simpatizas.

Inclui letras pequenas

Num mundo ideal, todos os trabalhadores independentes fazem um contrato de prestação de serviços com todos os clientes com quem trabalham, mas isso não acontece a maior parte das vezes. Pessoalmente, raramente faço contratos, mas ponho sempre (sempre!) todos os acordos por escrito, via e-mail. Nunca negoceies preços ao telefone sem um e-mail a seguir a repetir tudo o que disseste.

Por escrito, no contrato ou na tua proposta de orçamento, inclui o modo de funcionamento da vossa parceria de trabalho:

  • Propõe uma modalidade de pagamento (por exemplo, 50% no início, 50% no final do trabalho);
  • Define um prazo de validade para o orçamento (não queres que esse cliente o guarde durante 2 anos e depois venha pedir-te um trabalho a preços que, se calhar, já não praticas);
  • Prevê um custo (ou renegociação) em caso de alterações ao briefing original;
  • Assegura a confidencialidade do orçamento;
  • Determina antecipadamente que é da responsabilidade do cliente fornecer-te, em tempo útil, todas as informações necessárias à boa execução do trabalho;

Quanto envias a tua proposta de orçamento ao cliente, teres uma secção só dedicada a estas coisas (a que podes chamar, por exemplo, Termos e Condições), pode proteger-te mais tarde. Embora o seu valor legal não seja como o de um contrato de prestação de serviços, as condições estarem escritas e o cliente aceitá-las por escrito pode ser uma grande ajuda em situações de conflito.

Fala sobre dinheiro
com o teu cliente

Diz-se que é uma coisa portuguesa, deixar a conversa do dinheiro para o final das reuniões. Se é ou não, não sei (sempre trabalhei em Portugal, não tenho comparação), mas sei que muitas vezes saio das reuniões com a sensação de que não falei do mais importante.

Se vender o teu trabalho e defender preços for o teu ponto forte, excelente!, vais longe como freelancer. Mas, se não for, tenta lembrar-te que, como qualquer outro trabalhador a prestar um serviço, é o teu trabalho e mereces ser pago, ninguém (senão tu) é inseguro quanto a isso.

Quanto mais confortável estiveres com o teu preço e com as tuas finanças pessoais, melhor vais conseguir defender o teu orçamento.

Se o cliente, mesmo assim, rejeitar a tua proposta, não te recrimines. Podes tentar negociar, mas é natural que, por vezes, te cheguem clientes que não têm dinheiro, ou que não percebem que o teu trabalho custa esse valor.

É decisão cliente se pode e quer fazer o investimento em comunicação do seu negócio, não é a tua responsabilidade baixar o preço. É uma decisão de compra, como em qualquer outro negócio; poderás encaminhá-lo e aconselhá-lo, fazê-lo perceber o valor do investimento, mas no fim a decisão é dele.

Com os teus pares

Certamente conheces outros freelancers a trabalhar na tua área. Falares abertamente com eles sobre os valores que cobram e como tratam os seus orçamentos, pode ajudar-te a melhorar a maneira de fazer os teus preços.

As remunerações, muitas vezes, são tratadas como tabu, mas toda a gente tem curiosidade em saber quanto ganham os outros. Para começares essa conversa com alguém, abre o jogo e assume as tuas dúvidas.

Recomenda e sugere (outros freelancers e estúdios)
recomenda

Podes acontecer não teres tempo para o trabalho, ou o cliente procurar um serviço que não é bem aquilo que fazes, mas recomenda e sugere sempre outros freelancers e estúdios (idealmente 3 diferentes).

Isto ajuda-te a construires relação com esse cliente ou potencial cliente, além de estabelecer uma rede de trabalho entre ti e a comunidade criativa.

sugere

Por vezes há trabalhos que percebes que ganham outra dimensão se lhes acrescentares algo: se calhar é aquela embalagem que desenhaste e que merecia umas fotografias profissionais, ou o logótipo que fizeste e que precisava de ser animado.

Não perdes nada em sugerir ao teu cliente para acrescentar um novo serviço teu (ou uma nova pessoa à equipa), sobretudo se, quem ganha no fim, for o ele próprio por o teu trabalho ser ainda melhor.

Em conclusão

Fazer orçamentos vai-se tornando mais fácil à medida que ganhas experiência. Eventualmente vais conseguir libertar-te do sistema do valor/hora e atribuir valor ao teu trabalho sem usar essa fórmula.

É que, ainda que seja mais fácil calcular orçamentos dessa maneira, trabalhar por hora tem várias desvantagens, sendo a principal que a criatividade não se mede em horas — podes ter uma boa ideia em 5 minutos — e o trabalho de criação não nasce do vácuo — há muitas horas de formação e experiência até chegares até aqui, mesmo que aqui seja só o início.

Por isso, quanto falamos de orçamentos, a pergunta para 1 milhão de euros é mesmo essa: Qual é o valor da criatividade?

A seguir: 3 métodos de fazer orçamentos