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Como decidir ser freelancer

Um guia para descobrires se deves tomar a decisão de te tornares freelancer.

Um guia para descobrires se deves tomar a decisão de te tornares freelancer.

É natural que, como profissional criativo, em alguma altura da tua vida te encontres numa situação de trabalho independente — seja porque saíste da universidade há pouco tempo ou porque estás entre empregos — mas ser freelancer pode ser uma decisão de carreira (em vez de uma situação temporária).

Estas são algumas perguntas que deves fazer a ti próprio no momento de decidires se te deves tornar freelancer a longo prazo:

  • Quais são as vantagens e as desvantagens de ser trabalhador independente?
  • Como se adapta a tua área de trabalho ao trabalho independente?
  • Vendes ou vais vender produtos?
  • Gostas de passar tempo sozinho?
  • Qual é o teu nível de auto-disciplina e organização?
  • Quanto ganha um freelancer?
  • Quais são as obrigações fiscais de um trabalhador independente em Portugal?
  • E se o negócio correr muito bem?

Quais são as vantagens e as desvantagens de ser trabalhador independente?

Vantagens
Horário flexível

Ao trabalhar por conta própria podes escolher o teu próprio horário (nunca vais chegar atrasado!). Também podes escolher os dias de folga (olá, fim-de-semana à segunda e à terça!). Podes ir às compras e ao banco quando não está ninguém. Podes trabalhar as horas que quiseres e quando quiseres, desde que o trabalho fique bem feito e no prazo estabelecido.

Isso não significa que vais poder trabalhar toda a noite e dormir todo o dia — os teus clientes, provavelmente, vão ter horários de trabalho comuns e convém estares acordado à hora em que eles estão a trabalhar: para responderes a e-mails, para atenderes o telefone, entre outras coisas que fazem parte quando se trabalha com pessoas.

escolha de clientes

Quando trabalhas como freelancer podes escolher o tipo de clientes para quem queres trabalhar, à medida que vais evoluindo e te vais especializando em determinadas áreas.

Isto também significa que vais conhecer os teus clientes e a sua forma de trabalhar na primeira pessoa, e que podes rejeitar aqueles com cujas práticas não concordes (que não sejam eticamente ou ambientalmente responsáveis, que não aceitem os teus orçamentos, entre outras situações).

local flexível

Podes trabalhar onde quiseres! Podes trabalhar em casa, no café, na esplanada, no parque, podes alugar um escritório só para ti ou trabalhar num espaço co-work.

Depende, claro, da tua área de trabalho: se fores um fotógrafo, talvez possas considerar montar um estúdio, ou se fores produtor, talvez muitos dos teus dias de trabalho exijam que estejas num local específico.

controlo total do trabalho

Todos os aspectos do trabalho estão sob o teu controlo: o orçamento, a gestão do tempo, todas as decisões que tomas, como o promoves, e o equilíbrio que fazes entre a tua vida pessoal e profissional.

Desvantagens
rendimentos instáveis

Uma das maiores desvantagens de se ser trabalhador independente em comparação ao trabalho por conta de outrém é a instabilidade de rendimentos.

A não ser que trabalhes em regime de avenças regulares com alguns clientes, não vais conseguir prever com certeza quando vais receber o próximo pagamento.

Não há um ordenado certo ao final do mês.

Isso pode obrigar a uma gestão mais apertada das tuas finanças pessoais, e significa um maior grau de risco quando fazes grandes investimentos (como comprar um novo computador, por exemplo).

Não há subsídio de férias nem de natal

Não só os teus rendimentos são instáveis como não vais poder contar com subsídios de férias e de Natal.

Claro que, se o negócio estiver a correr muito bem, podes pagar-te a ti mesmo um bónus para férias, mas não é um dado adquirido: vai depender do teu esforço.

assertividade é obrigatória

Se fores um coração mole como eu, esta é uma grande desvantagem. Nem sempre é fácil bater o pé quando encontras um cliente conflituoso — ou porque quer negociar os teus valores abaixo do que costumas cobrar, ou porque quer acrescentar elementos ao briefing que não estavam previstos inicialmente, ou mesmo porque não te quer pagar o que ficou acordado.

controlo total do trabalho (para o mal, também)

Para o bem e para o mal, tu e só tu és responsável pelo decorrer do teu trabalho. Todos os prazos, todas as decisões, todas as artes finais.

Às vezes, para tomar decisões, é bom fazer pingue-pongue de ideias com um colega de profissão. Às vezes é bom haver alguém que faça revisão da nossa arte final, só mesmo para garantir que não passa nenhum erro. Podes encontrar outros freelancers com quem colabores nestas trocas de ideias. Os prazos, não há volta a dar, são sempre só teus.

Como se adapta a tua área de trabalho ao trabalho independente?

A maior parte das áreas criativas têm potencial para serem desenvolvidas por trabalhadores independentes: designers, ilustradores, programadores, profissionais do marketing digital, produtores, fotógrafos, videógrafos, copyrighters, gestores de redes sociais, e a lista continua.

Comprar um computador melhor ou uma máquina fotográfica profissional, podem ser investimentos iniciais obrigatórios em algumas áreas. Por outro lado, a angariação inicial de clientes também não é igual para todos: há mais potenciais clientes para design gráfico do que design de produto ou moda.

Antes de começares é importante avaliares oportunidades na tua área de trabalho, falares com freelancers que já trabalhem nessa área e fazeres contas quanto a possíveis investimentos para poderes trabalhar por conta própria.

Vendes ou vais vender produtos?

Se além de serviços vendes ou pretendes vender produtos, a tua atividade nas finanças terá de contemplar isso. Os impostos sobre os produtos, considerando que a venda de produtos acarreta mais despesas, são calculados a partir de percentagens mais baixas.

Informa-te sobre essas variações de atividade antes de decidires como a vais registar nas finanças.

Gostas de passar tempo sozinho?

Se a resposta a esta pergunta for não, talvez ser freelancer não seja para ti. Salvo excepções em que o projeto é partilhado com empresas ou outros freelancers, é um trabalho solitário.

Terás de lidar com os clientes, tratar dos pagamentos e ainda fazer todo o trabalho por tua conta. É, literalmente, trabalhar por conta própria.

Se te custar passar tanto tempo sozinho, podes experimentar trabalhar num co-work ou alugar um escritório com outros trabalhadores independentes.

Qual é o teu nível de auto-disciplina e organização?

É um cliché, mas é verdade. Trabalhares por conta própria significa que não há ninguém que te dê ordens — ninguém que te obrigue a trabalhar agora em vez de mais daqui a bocado, ninguém que esteja à espera que voltes do almoço às 14h30, e ninguém que te diga em que ponto do projeto estás e quanto falta para terminar.

Seres disciplinado e organizado vai facilitar-te a vida enquanto freelancer, sobretudo se não tiveres um contabilista para tratar da burocracia por ti.

Quanto ganha um freelancer?

Trabalhadores independentes em Portugal, sobretudo se falarmos de muitas áreas diferentes, podem ter remunerações completamente diferentes: 10 ou 50€/hora, 70 ou 300€/dia, 200 ou 2000€/por rótulo de vinho. São valores muito díspares, percebem a dificuldade?

No entanto, um freelancer, em teoria, tem potencial para ganhar mais do que um trabalhador normal na mesma área, isto porque o teu preço pode ser feito com base no valor acrescentado pelo teu trabalho.

Não existem valores de referência para o trabalho independente. Se trabalhas em design ou marketing, podes consultar a tabela que se encontra no link da bio da Ladies Wine & Design Porto para teres uma ideia geral dos valores de designers freelancers e de como se comparam aos valores de trabalho por conta de outrém.

Quais são as obrigações fiscais de um trabalhador independente em Portugal?

Os impostos podem depender da tua atividade. Se tiveres rendimentos com direitos de autor, é uma categoria diferente. No entanto, vamos considerar para este artigo impostos sobre prestação de serviços comuns (sejam fotografia, design, marketing ou outros).

segurança social

Em Portugal, um trabalhador independente que abra atividade nas finanças tem isenção de 12 meses de segurança social. Depois disso, a cada trimestre é considerado que o teu rendimento real corresponde a 70% do teu rendimento total (100%). Desses 70% terás de pagar 21.4% de segurança social, dividido pelos 3 meses seguintes.

IRS

O IRS e as retenções na fonte podem ser os impostos mais confusos para os trabalhadores independentes (pelo menos são para mim!). Só tens obrigatoriedade de fazer retenções de IRS caso a tua faturação tenha ultrapassado os 10.000€ no ano anterior, ou tenhas ultrapassado esse valor no mês anterior do ano corrente.

Mesmo sem obrigatoriedade, podes escolher fazer retenção de IRS (e informar o teu cliente sobre isso) para te salvaguardares de pagamentos altos em abril/maio (altura em que se paga o IRS).

Com apoio de uma contabilista, trarei um artigo só sobre retenções na fonte, para ficarmos todos esclarecidos.

IVA

Pode parecer parvo, mas demorei algum tempo a entender porque é que o IVA é o cliente que paga. Se para vocês ainda não é óbvio, então vamos lá.

O IVA é um imposto que vocês encontram em praticamente tudo o que compram, seja em idas ao supermercado, seja em obras em casa. Normalmente, se alguém vos der um orçamento para obras na cozinha, vai dar-vos um valor+IVA. Ou seja, o IVA que o vosso empreiteiro terá de entregar ao Estado nem é propriamente incluído no orçamento, vocês quase já o estão a pagar à parte.

Imaginem que vocês, enquanto freelancers, são meros intermediários para o IVA passar do cliente para o Estado.

Para a grande maioria dos freelancers, a taxa de IVA é de 23% (a taxa normal). Ou seja, por cada 100€ que faturares, terás de acrescentar 23€ de IVA.

Tal como na retenção de IRS, poderás estar isento de IVA se tiveres um volume de negócios (faturação) mais baixo (artigo 53º do Código do IVA) ou se tiveres determinadas características, por exemplo, se fores um músico a faturar um concerto para o promotor de espetáculos que te contratou (artigo 9º do Código do IVA).

E se o negócio correr muito bem?

Se correr muito bem, excelente!

Tens duas hipóteses:

  • Ou aumentas os teus preços de forma a seres capaz de responder a tudo sozinho, com qualidade, e mesmo assim avançar na carreira;
  • Ou juntas elementos à tua equipa e aumentas a tua capacidade de trabalho;

Nas duas hipóteses, mas sobretudo na segunda, dependendo do teu volume de negócio, poderás considerar em deixar a vida freelancer e criar uma empresa.

Conselhos finais

  • Não te deixes intimidar pelo desconhecido. A internet está cheia de informação e pessoas com quem podes contar para tirar dúvidas, melhorares a tua capacidade de negociação e te inspirares para o próximo projeto.
  • Vai haver dias maus. Dias em que ser freelancer é péssimo. A conta vai descer e não vais ter trabalho para a semana seguinte. A linha de apoio da segurança social vai-te tirar do sério. O cliente não vai ser correcto contigo. Os dias maus existem em todos os trabalhos, mas ao ser freelancer tens de lidar com eles mais sozinho.
  • Vai haver dias bons, também. De vez em quando vais tirar um dia de folga extra a meio da semana, sem dar justificações a ninguém. Vais entusiasmar-te com um projeto novo ou vais conhecer um cliente que confia e compreende o teu trabalho sem esforço.
  • Sobretudo, se é para seres freelancer, pelo menos faz aquilo que mais gostas. Ser trabalhador independente não é muito fácil, por isso se estiveres a escolher esse caminho, que seja para trabalhar naquilo que gostas de fazer. Para seres freelancer a fazeres algo que detestas, mais vale teres um emprego que gostas pouco e te dá bem menos dores de cabeça.

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